9 de agosto de 2020

Amor Pandêmico (o fim)

Por leandrodall

(caso não tenha acompanhado os capítulos anteriores, sugiro, fortemente, que você o faça para que a história faça sentido para você)

Depois do cumprimento do isolamento social de duas semanas, havia chegado, finalmente, o dia do reencontro entre João Marcos e Sabrina.

Ele quase não dormiu na noite anterior. Lembrou-se de quando era uma criança e como ficou quando soube que conheceria a Disney. Ficou tão na expectativa que não pregou o olho a noite toda. Até que foi: dormiu a viagem inteira e estava zerado para aproveitar os encantos do Mickey e companhia quando chegou em Orlando.

Mas, dessa vez era diferente. Era um sonho diferente, uma expectativa diferente e um caminho que nunca sonhara para conhecer o grande amor de sua vida.

Da janela do seu quarto, olhava para o belo jardim, iluminado apenas pelo brilho da bela lua cheia. A noite estava bonita. Nada de chuva, apenas o frescor delicioso da primavera, o tempo do amor, dos amantes e dos amados. Procurou por algumas estrelas no sol. Tentou encontrar o cruzeiro do sol ou alguma constelação conhecida. O objetivo, porém, era apenas imaginar e prever como seria esse lindo reencontro.

Passou dias pensando no roteiro ideal. O jantar estava reservado para às 19 horas no London Eye. Antes, passeariam pelos principais pontos turísticos. Sim, viajar é clichê e reencontrar o amor é mais clichê ainda!

Os outros dias, ousaria um pouco mais. Passeio pelo Soho, por Camden Town… Quem sabe até daria para passar um final de semana na Escócia ou outro lugar lindo com paisagem bucólica cinematográfica.

Depois de tantas idas e vindas amorosas, seu momento finalmente chegou. Era só esperar. Ou melhor, dormir. Rolou para um lado da cama. Rolou para o outro e nada de cair no sono.

As horas se passavam em um lento vai e vêm. Não queria arriscar. Resolveu tomar 2 cápsulas de melatonina e logo o sono veio. Dormiu como um anjo.

Chegara o grande dia?

João Marcos acorda.

Dor nas costas.

O dia já estava alto.

Não reconhecia o quarto.

A janela era menor do que tinha sonhado.

Cama dura. Nada de travesseiro.

Não se lembrava da roupa que estava usando.

Levantou-se rapidamente e bateu a cabeça.

Ergueu os olhos: era um beliche.

Olhou com mais cuidado ao seu redor.

O quarto tinha cores escuras. Havia mais alguém junto com ele.

Havia um banheiro improvisado. Uma pequena pia ao lado.

Tinha também uma pequena mesa com poucos (e bem gastos) livros.

Esfregou as mãos nos olhos. Passou a mão na cabeça. E se lembrou de tudo que tinha acontecido.

Havia sonhado novamente com ela, sempre ela, a sua Sabrina.

A mesma Sabrina (será que esse era o nome verdadeiro dela?) que o levou até ali, para aquela pequena cela de concreto.

A mesma Sabrina que o abordou no aeroporto.

A mesma Sabrina que conheceu em um charmoso café.

A mesma Sabrina, olhos grandes e castanhos, simpática e boa de conversa, com um sorriso que amolecia os corações mais endurecidos. Sim, ela mesma que se aproximou e se sentou à sua mesa.

A mesma Sabrina que subitamente se ausentou para nunca mais voltar, como um cometa, cujo brilho ilumina a noite mais escura.

Ela havia largado parte de seus pertences embaixo da mesa e desaparecido no meio da multidão, ao mesmo tempo em que a segurança aeroportuária abordava João Marcos para verificação de uma denúncia anônima, a respeito de um eventual carregamento de material ilícito com destino a São Paulo.

Sabrina, objeto dos seus mais lindos sonhos, era também a causa do pesadelo que estava vivendo e ainda não tinha data para acabar.

João Marcos, agora prisioneiro NV004589 na penitenciária de segurança máxima de Český Krumlov (cerca de 180 quilômetros de Praga), aprendeu, amargamente, sobre o perigo de ser gentil no aeroporto e de se deixar levar pelo sentimento.

A pandemia de amor havia feito mais uma vítima.

Longe dali, Sabrina, agora ruiva, unha postiça e andar afetado, procurava por um novo João Marcos para despistar a política aeroportuária, enquanto o novo carregamento de ice seria embarcado em segurança.