13 de agosto de 2020

Já que…

Por leandrodall

Você está navegando na internet. O algoritmo do AlphaZero (inteligência artificial do Google) tem as suas preferências de pesquisa e, consequentemente, de consumo.

Tem aquele site que você acessa com frequência e as ofertas que aparecem são personalizadas.

Você nota que o preço daquele objeto de desejo está mais barato do que nos meses anteriores. Resolve dar um clique de fé e ver se é aquilo mesmo.

Um clique e uma nova página se abre.

O produto que você deseja está lá. Antes de aparecer o preço, seu produto é descrito em detalhes. As fotos são da melhor resolução que você já viu. Os comentários dos outros compradores são só elogios.

Você resolve dar mais um clique para poder acessar o preço e as condições de pagamento de seu produto. Mas, agora, você está diferente: está mais convicto de que aquele produto é o que você realmente estava procurando.

Opa, antes do preço e das condições de pagamento, é preciso preencher um cadastro.

Você pensa poucos segundos e, antes que perceba, já está digitando seu nome completo, seu CPF, seu endereço de entrega e o cartão de crédito de sua preferência.

Então, aparece a opção de confirmar compra e você tem uma surpresa: o preço mais em conta do produto que você deseja é à vista. No cartão de crédito, tem um pequeno acréscimo.

A pergunta é: vai comprar?

Ou, melhor ainda, você teria chegado até aqui se soubesse que o preço não estava tão em conta assim?

Nós, seres humanos, procuramos levar uma vida coerente.

Aquele que diz uma coisa e faz outra, não é bem visto pela sociedade. Normalmente, pessoas com uma trajetória não muito linear são aquelas que não chegam muito longe na vida. A coerência, por outro lado, é uma característica boa e desejável. É sinônimo de autocontrole, estabilidade, organização, sucesso…

Buscamos unicidade, ou seja, uma linha de ação coerente com nossas crenças, nossos pensamentos e nossos desejos.

E, conforme vamos assumindo pequenos compromissos, mais difícil se torna revertermos a lógica observada até então. Desde um clique a mais até um test-drive, passando por uma “degustação gratuita por 7 dias”. E muita gente tem percebido (e lucrado com) isso.

Robert Cialdini, em seu livro Armas da Persuasão, destaca a poderosa dupla compromisso e coerência nas decisões que tomamos dia após dia. É princípio dos mais fortes e bastante usado por pessoas nem sempre bem intencionadas.

E o jeito de operar é sempre o mesmo: incentivar o alvo a ir adotando “pequenos” compromissos até que pela necessidade de uma “falsa” coerência, a decisão é um “sim” para determinada ação.

Outro exemplo.

Havia uma pesquisa sobre hábitos de lazer. Então só porque você vai ao teatro/cinema/shows/espectátulos/etc “x” vezes ao mês é coerente que você adquira certo produto que proporcione desconto a esses lugares?

Ou só porque você aceitou experimentar determinado produto digital por 7 dias é que você não pode efetuar o cancelamento e desistir da compra?

Sempre que sentimos aquele desconforto no estômago ou, se no fundo do coração, sentimos uma sensação de que algo está errado e não conseguimos identificar exatamente o quê, talvez você esteja sendo vítima de uma técnica de influência/persuasão para adquirir algo que não queira.

É tipo um feeling, sabe? Ou Blink como Malcom Gladwell descreve em seu livro de mesmo nome e devemos sempre ficar atentos aos sinais que nosso corpo emite. Podem nos livrar de situações/sensações indesejáveis.

Fuja do já que… Tome as decisões de sua vida de maneira mais consciente e menos impulsiva.

Seja fiel às suas crenças, pensamentos e desejos e sempre se pergunte: caso determinada “condição especial” desaparecesse agora, minha decisão seria a mesma? Se a resposta for não, apenas fuja ou largue o mouse! Você vai me agradecer depois!

Apenas compre, apenas se comprometa, apenas aceite aquilo que realmente for relevante e importante para você. Tenha a coragem de dizer não e de ser coerente com quem realmente importa: você.